Caruaru do passado: Como era a Semana Santa na cidade?

Logo após a agitação carnavalesca, a maioria dos caruaruenses mergulhava, de modo muito contrito, em um período de 40 dias de penitências e orações, que começava na quarta-feira de cinzas, marcando o início da Quaresma, quando todos iam à igreja confessar seus pecados e receber o sinal da cruz em sua testa, feito com cinzas, em sinal de arrependimento.






Naquela época, numa demonstração de muita fé, ou talvez numa exacerbação dos costumes e atitudes religiosas, durante a Semana Santa, que começava no Domingo de Ramos, havia verdadeiramente a prática de jejum e abstinência por parte dos católicos. E nesse período era grande o número de devotos que se vestia de branco e ficava recolhido em oração, evitando fazer alguns trabalhos domésticos e hábitos de higiene pessoal, como varrer a casa, lavar roupa, tomar banho, pentear os cabelos ou usar qualquer tipo de maquiagem ou enfeite. Nas residências não se ouvia barulho de música profana. As emissoras de rádio só tocavam músicas instrumentais ou sacras, em sinal de pesar pela morte do Senhor Jesus, e, ao meio-dia da sexta-feira santa, era levado ao ar o drama da Paixão de Cristo, transmissão ouvida pelas famílias com atenção e respeito. Os motoristas evitavam rodar com seus carros, o trem não circulava, principalmente, na sexta-feira, quando se evitava negociar ou receber dinheiro. Muitas pessoas pobres tinham o costume de pedir de casa em casa o “jejum” e quase sempre recebiam peixe, bacalhau, vinho e pão, numa demonstração de partilha cristã e porque o preço do bacalhau era acessível a todos.

Por ser uma época chuvosa, quase sempre havia grandes cheias no Ipojuca, que ainda era um rio de respeito, o que representa um  perigo, pois as crianças, em suas inocências, conseguiam burlar a vigilância dos pais e iam tomar banho naquele manancial lindo, mas muito perigoso, pulando de cima das pontes e mergulhando nas águas barrentas, enfrentando as correntezas. Alguns adultos, com a cabeça cheia de vinho, também praticavam essa imprudência e muito deles, infelizmente, morriam arrastados pelas águas, presos num emaranhado de “baronesas” e bagulhos trazidos pelas enchentes.




Uma prática nada religiosa era a de “malhar o Judas”, personagem representado por um boneco de pano do tamanho de um homem, vestido a caráter, que ficava pendurado em lugar visível e estratégico para chamar a atenção dos transeuntes, esperando a hora do linchamento, o que acontecia na noite do sábado, depois da meia-noite, com muito alarde e anarquia, com a participação de jovens e adultos.

Outro costume muito desagradável era o “Serra Velho”, episódio que acontecia na noite de quinta para a sexta-feira. Um grupo de rapazes, munidos de serrotes, pedaços de madeiras e diversos materiais que serviam para fazer barulho, postavam-se diante de uma casa, previamente escolhida, onde morava um idoso, de preferência que tivesse uma filha solteira. Os rapazes ficavam de tocaia, esperando até que o cidadão fechasse a porta para ir dormir, quando então se aproximavam e, na calçada da casa, começavam uma verdadeira balbúrdia: uns fingiam estar serrando a madeira, outros batiam como se estivesse pregando pregos, outros choravam “agourando” o idoso e todos fingiam estar fazendo o caixão de defunto para o coitado. Essa brincadeira de mau gosto irritava profundamente o dono da casa, que saía furioso para espantar “os cabras sem vergonha”, às vezes dando tiro de espingarda para cima, num claro sinal de que não iria tolerar repetição de atitude tão insultuosa.




Hoje, essas duas práticas abomináveis, que nada tinham a ver com o verdadeiro sentido religioso da Semana Santa, e que jamais foram incentivadas pela igreja, graças a Deus, foram proibidas e a polícia fica atenta a qualquer desobediência da lei.

Atualmente, no período da Semana Santa, ainda há sentimento de religiosidade em boa parte da população que frequenta igrejas, faz retiro espiritual e procura guardar silêncio. No entanto, o comércio e a indústria funcionam normalmente, exceto na Sexta-Feira Santa, quando ainda se guarda o feriado. Em tempos normais, muita gente viaja para praias e outros vão assistir ao belo espetáculo da Paixão de Cristo em Nova Jerusalém/Fazenda Nova. Infelizmente muitos se esquecem do verdadeiro sentido da Semana Santa e também d’Aquele a quem se deve toda glória: Nosso Senhor Jesus Cristo.



Deixe uma resposta